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Uma família importante em Almeirim: "Os Soares da Mota"

Uma história sobre Paço dos Negros.

Uma Família importante em Almeirim:


Os Soares da Mota


Este ano completam-se quinhentos e dez anos desde que o rei D. Manuel I mandou edificar as suas casas da Ribeira de Muge – no ano de 1511 – os Paços da Ribeira de Muge, que se tornaram conhecidas, popularmente, por Paço dos Negros.
Às vezes, para fazermos a verdadeira História, “há que remar contra ventos e marés”. Todos conhecemos a relação das personalidades que foram detentoras do almoxarifado dos referidos paços. Em primeiro lugar há que esclarecer que a designação de “paço” se aplicava na generalidade das construções em que o rei poderia instalar-se. Ela não é, deste modo, representativa da sua dimensão ou importância. Outro ponto a ter em conta é o da designação de almoxarife. Este cargo era atribuído a personalidades da confiança da coroa, constituindo um ofício que passava de pais para filhos, ou familiares. De acordo com o seu Regimento, tendo em atenção as atribuições definidas por D. Manuel, o mesmo tinha que dar contas do seu cargo. A principal responsabilidade estava na administração e cuidados a ter com a responsabilidade que lhe era atribuída.


Ora o almoxarife de Paço dos Negros não prestava contas. É o que refere Frazão de Vasconcelos, eminente investigador, que indica “o ofício (….) é ocupação capaz de servir toda a pessoa de distinção porque não tinha a obrigação de dar contas trienalmente nem de pagar por folha (…)”.
Ora estas obrigações eram relevantes para quem exercesse um cargo de responsabilidade.
Sem referir a enumeração de todos os almoxarifes que aí prestaram serviço, vou debruçar-me sobre a família Soares da Mota.
Na segunda metade do Século XVII surge a indicação de José Soares da Mota como almoxarife de Paço dos Negros. Antes o cargo havia sido desempenhado por Jorge Peixoto da Silva. Este aparece a fazer uma escritura de arrendamento do seu moinho da Ponte Velha – doado à família por D. João III – no dia 5 de Janeiro de 1669. O arrendamento é feito a António João, morador no moinho da Várzea Redonda – que era de Paulo de Azevedo. Logo a seguir, no dia 2 de Março, surge o Alvará real de nomeação do filho, Filipe Peixoto da Silva, para o cargo, o que indica o falecimento de Jorge Peixoto, pouco antes.


Este Filipe não chegou a exercer o cargo por ser menor de idade. Daí aparecer José Soares da Mota. Este era filho de pessoas influentes da época: Paulo Rodrigues, da Ribeira de Santarém e de Maria da Mota, filha de Miguel Fróis, que tinha ascendência nobilizada e era proprietário em Santarém e no campo de Monção (junto à Tapada). José Soares casou com Maria Henriques da Costa, filha do Almoxarife dos Paços Reais de Almeirim, Belchior da Costa e de sua mulher Vicência Henriques.
Poderemos encontrar aqui a influência para a sua nomeação, por D. Pedro II, para o cargo do Paço dos Negros.
A nomeação de José Soares marca a residência permanente dos almoxarifes do paço da Ribeira de Muge, na vila de Almeirim.
Este casal teve vários filhos, todos influentes em Almeirim: Paulo Soares da Mota – nascido em Almeirim a 28 de Maio de 1665. Foi batizado pelo Padre Coadjutor Manuel Cyro Henriques. Casou com Josefa Maria de Seixas, neta de Gaspar Henriques, membro do Conselho da Fazenda e que teve aforamentos na vila. Outra foi Maria da Mota, nascida a 23 de Maio de 1667. Casou com António Durão de Torres, lavrador e escrivão do ponto dos Paços de Almeirim. A seguir surge Joana da Mota, nascida a 24 de Junho de 1669. Por último temos Vicência da Mota, nascida a 24 de Janeiro de 1671.


São variados os acontecimentos sociais em que surge o nome de José Soares da Mota. Segundo o costume da época era normal convidar-se para padrinho dos filhos as pessoas que mais se destacavam na localidade, o que é o caso. O seu primeiro neto é filho de António Durão de Torres e de sua filha Maria [Henriques] da Mota, José, nascido a 18 de Junho de 1684, tinha a mãe 17 anos.
O nome de Paulo Soares da Mota surge com mais frequência a partir de Fevereiro de 1689, já como almoxarife do Paço dos Negros, de que tinha recebido, anteriormente, Alvará de D. Pedro II. É um dos oficiais do Senado da Câmara de Almeirim que assinam a petição dirigida ao rei D. Pedro II, solicitando a transferência das terras sem utilidade, dentro do limite da vila, para o tombo da Câmara. Este pedido é acompanhado da informação de que “a Câmara é muito pobre” sendo os terrenos destinados ao aforamento para se fazerem casas. Os elementos do Senado eram: Vicente Ferreira Jácome, Juiz ordinário, João Farinha Lopes e Paulo Soares da Mota, como vereadores.


A sua primeira filha, Isabel, que terá falecido ainda jovem, nasce a 14 de Setembro de 1699, o que pressupõe o casamento no ano anterior. O casal Paulo Soares e Josefa Maria vão ter 12 filhos, proeza considerável, mesmo para a época. Assim temos: José, nascido a 1 de Janeiro de 1700; Caetana Maria, a 18 de Julho de 1703; Luís, a 1 de Abril de 1705 – que veio a falecer ainda jovem; Bernardo, a 20 de Junho de 1708, que teve como padrinho Bernardo de Sousa Fróis, de Santarém; António, a 3 de Janeiro de 1710; Eufrásia Maria, a 13 de Julho de 1711; João, a 27 de Janeiro de 1713; Maria, a 2 de Julho de 1714; Felix, a 28 de Maio de 1716, Isabel, a 3 de Março de 1718; Luís a 16 de Janeiro de 1720.
Para além das propriedades que possuía por arrendamento e aforamento, verifica-se a compra de casas de morada na rua das Vinhas, em Almeirim, a António Gomes Vaqueiro, no ano de 1709. Junto a elas já possuía uma vinha.
No ano de 1712, dia 12 de Janeiro, surge uma referência com o tratamento oficial de “Fidalgo da Casa de Sua Majestade”.


Sendo pessoa influente ocupou, por diversas vezes, o lugar de oficial do Senado da Câmara: vereador nos anos de 1690, 1703, 1705, 1711, 1716, 1721 e 1722. Como Juiz ordinário em 1693 e 1709; em 1712 ocupa o cargo de Juiz dos Órfãos.
No ano de 1722, dia 10 de Março, registamos a sua presença numa procuração que a mulher lhe faz para venda de fazendas que possuíam em Alverca. Logo a seguir, no dia 24 de Julho há uma nova Procuração de Josefa Maria de Seixas “viúva que ficou de Paulo Soares da Mota”. Assim o almoxarife Paulo faleceu antes deste dia de Julho, contava 67 anos.
De todos os seus filhos o que surge com mais destaque, nos anos seguintes, é António Soares da Mota.


Aparece a desempenhar as funções de padrinho em vários batizados, sendo também irmão da Irmandade do Divino Espírito Santo, nos anos de 1728,1730 e 1738. Neste ano é procurador de sua mãe no empréstimo, de 150$000 reis, que ela faz à Irmandade do Santíssimo. No ano de 1733 concede Perdão a Manuel de Carvalho e a João Gomes “por lhe terem ido de noite à sua vinha”.
A informação mais importante sobre António Soares da Mota surge em 1737, a 21 de Janeiro. Na doação que o Reverendo Vigário de Almeirim, Padre José Rodrigues Ferreira, faz a Manuel da Fonseca, ele assina como testemunha. Na sua assinatura acrescenta: Almoxarife de Paço dos Negros, ofício em que substitui o pai.


A sua carreira terminou cedo. A sua mãe, Josefa Maria, no dia 19 de Março do ano de 1744, faz uma procuração ao filho Felix Manuel da Mota, para que este venda uma vinha em Alvisquer, “a qual lhe ficou por morte de seu filho António Soares da Mota”.
O seu irmão João de Seixas Henriques vai fazer a sua habilitação para ficar com o cargo, o que acontece no ano de 1750.
Vemos assim que esta família dos Soares da Mota, que era muito numerosa e tinha laços familiares com as outras famílias importantes da vila, e detinha o ofício de Almoxarife do Paço dos Negros, era residente em Almeirim, onde tinha várias propriedades e bens.


Pesquisa documental realizada nos arquivos da CMA, Registo de Batismos no ANTT e Livros de Notas do Tabelião de Almeirim – A.D.S
Eurico Henriques.